088 - Alan Moore
Talvez o maior roteirista de quadrinhos de todos os tempos
Uma biografia
Alan Moore nasceu em 1953 em Northampton, uma cidade inglesa milenar de médio porte localizada entre Londres e Birmingham, tradicionalmente ligada à indústria de calçados, mas hoje uma região fabril de maneira mais ampla. É uma cidade de desigualdades sociais, o que é um fator relevante na formação de Moore, que nasceu numa família da classe trabalhadora e teve que trabalhar pesado desde jovem, em curtumes ou até limpando banheiros.
De uma infância de muita leitura, livros e quadrinhos, Moore chegou à adolescência com rebeldia, se opondo ao sistema educacional e enxergando desde essa idade como a lógica do mundo privilegiava aqueles que tinham melhores condições financeiras. Após vários anos publicando zines com suas poesias, ensaios e alguns quadrinhos independentes, o autor decidiu largar empregos formais e tentar trabalhar na indústria. Certamente foi um ato irresponsável, pois passou a ganhar pouquíssimo e tinha uma filha recém-nascida para sustentar, dependendo até de ajuda do governo para não passar fome.
No início dos anos 80 ele conseguiu emplacar algumas histórias na lendária revista britânica 2000 AD, após entender que era melhor escrevendo que desenhando e que jamais ficaria bom ou rápido o bastante para fazer ambos. Seu único trabalho com algum alcance em que fez também a arte é Maxwell the Cat, uma série de tirinhas publicadas em jornal.
Por volta de 1980 o autor passou a trabalhar em três frentes: na 2000 AD lançou obras como Dr. e Quinch, Skizz e A Balada de Halo Jones; para a Marvel UK lançou as revistas do Capitão Britânia (que depois seria integrado ao Excalibur, equipe de mutantes derivada dos X-Men); e em uma revista chamada Warrior, que dava maior liberdade aos autores e na qual Moore trabalhou em três obras principais - na incompleta Bojeffries Saga, numa roupagem adulta de um herói chamado Marvelman (depois renomeado Miracleman após processos judiciais), e num quadrinho sobre fascismo inspirado no governo de Margaret Thatcher, V de Vingança.
Isso chamou a atenção de um editor da DC, a americana mesmo, e Moore foi contratado pra revitalizar o Monstro do Pântano. O quadrinho não só fez muito sucesso com um público adulto como deu origem ao John Constantine, que motivou a criação do primeiro selo de quadrinhos para adultos do mercado estadunidense, o Vertigo. Ainda abriu as portas do mercado dos EUA para uma leva de escritores ingleses, como o cancelado Neil Gaiman e o maluco Grant Morrison.
Nessa leva de sucesso na DC, na qual também escreveu histórias avulsas para os grandes heróis da casa, Alan Moore publicou entre 1986 e 1987 Watchmen, uma suposição do que aconteceria se houvesse heróis num cenário realista (veja meu comentário sobre The Boys mais adiante nas recomendações desta edição). V de Vingança também foi concluído pela DC. Mas no final dos anos 80 o autor se decepcionou com as questões de como eram tratados os direitos autorais de suas obras no estúdio e rompeu com eles em definitivo.

Até 1993 ele trabalhou de forma independente, publicando principalmente Do Inferno, uma obra sobre Jack, O Estripador. Em 93 aceitou fazer algumas edições avulsas para a recém-fundada Image Comics, até conseguir um selo próprio, o America’s Best Comics (ABC). No selo o autor lançaria Tom Strong, Tomorrow Stories, Top 10, Promethea e o que viria a ser seu último grande título de sucesso, A Liga Extraordinária.
Mas no meio do processo, o dono da WildStorm, a parte da Image à qual a ABC era vinculada, vendeu o grupo pra DC e Moore se viu às voltas com nova interferência editorial dos seus ex-desafetos. Isso levou a um aumento de sua desilusão, mas ele conseguiu levar a Liga consigo e publicou outros volumes de maneira mais independente, além de algumas histórias inspiradas em Lovecraft e concluiu Lost Girls, que ele havia começado 20 anos antes.
Mas de lá pra cá decidiu largar os quadrinhos e trabalhar com livros mesmo, como o gigantesco Jerusalem, que é meio que sobre Northampton, e agora uma série de livros de fantasia urbana chamada de Long London, da qual saiu apenas o primeiro volume.
Moore é também famoso por seu ocultismo, um grande conhecedor e praticante de artes ocultas. E, claro, por sua aparência inconfundível, com o longo cabelo, a barba, as roupas inusitadas e as mãos cheias de anéis.

Minha relação com Alan Moore
Eu tive meu primeiro contato graças aos scans, por volta de 2002. Li V de Vingança, Watchmen, Miracleman, Do Inferno, Monstro do Pântano, A Piada Mortal, os dois primeiros volumes de A Liga Extraordinária, tudo assim.
E jamais me recuperei do impacto. O autor não só tem um texto bem escrito mas constrói arcos narrativos geniais, costurando bem a estrutura de suas tramas e alcançando resultados que poucos quadrinistas sonham. E a variedade de temas só destaca mais seu talento. Aos poucos fui adquirindo meus favoritos e por mim teria tudo, mas não tenho dinheiro nem espaço. Vou fazer uma breve sinopse de cinco dos seus principais títulos apenas para ilustrar:
V de Vingança: uma jovem sem rumo vira aprendiz de um anarquista chamado apenas de V, uma pessoa sob um manto e a máscara de Guy Fawkes que deseja causar caos no governo fascista que comanda a Inglaterra da história;
Watchmen: com pessoas superpoderosas, os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Nixon perdurou no poder, mas de repente alguns desses heróis vão sendo assassinados. Cabe ao perturbado Rorschach e aos jovens Coruja e Silk Spectre investigar esse mistério, lidando com o onipotente Dr. Manhattan e o cerebral Ozymandias;
Do Inferno: os crimes atribuídos a Jack, O Estripador acontecem na Londres vitoriana e parece que nobres podem estar envolvidos na morte dessas prostitutas;
Promethea: uma adolescente vira o invólucro da deusa Promethea e embarca em uma jornada através de muitos dos sistemas de magia conhecidos;
A Liga Extraordinária: Mina Murray (de Drácula), Allan Quatermain (das Minas do Rei Salomão), o Capitão Nemo (de 20.000 Léguas Submarinas), Jekyll e Hyde (de O Médico e o Monstro) e O Homem Invisível (do livro homônimo) se reúnem na Inglaterra vitoriana para resolver problemas para Mycroft Holmes (o irmão do Sherlock).
São dezenas de títulos obrigatórios para fãs de quadrinhos. Em cada um destes exemplos, Moore trabalha com diferentes artistas e isso permite que o resultado seja ainda mais variado. V de Vingança, pelo menos, eu considero obrigatório para qualquer pessoa, é um dos trabalhos literários mais significativos do Século XX. E Watchmen redefiniu o quadrinho de super-herói. Mas a verdade é que quase toda a bibliografia do mago barbudo é digna de nota.
E você? Já leu alguma coisa do Alan Moore? De quais obras mais gosta?
Um Filme: Seven: Os Sete Crimes Capitais
Fazia literalmente décadas que eu havia assistido ao primeiro grande sucesso do David Fincher. Esse e Clube da Luta eram os filmes do Fincher que eu precisava rever para organizar melhor minhas impressões sobre eles. Em Seven, um serial killer inspirado pelos sete pecados capitais está à solta, e o jovem investigador vivido pelo Brad Pitt tem que unir as forças com o veterano à beira da aposentadoria encarnado pelo Morgan Freeman. O jogo entre eles e o vilão é muito bem trabalhado e o final, claro, é um marco. Fincher ainda não era quem é hoje, mas é aqui que seu estilo e seus gostos vão ficando mais evidentes.
Leia a minha opinião completa no Letterboxd: Seven: Os Sete Crimes Capitais
Onde ver: HBO Max
Outros filmes que (re)vi na quinzena:
Os Pássaros (Oldflix)
Uma Série: Fundação - 3ª Temporada
Tenho uma relação ambígua com a série de Fundação. Os livros são difíceis de adaptar, pois são uma colagem de histórias separadas por décadas ou séculos. Então os produtores resolveram expandir muito a história, tentando dar uma coesão maior. E às vezes não funciona tão bem. A personagem Gaal Dornick, por exemplo, se torna muito mais relevante e isso soa forçado em alguns momentos, assim como a permanência de Hari Seldon. Por outro lado, a parte do Império, que não é abordada na trilogia principal dos livros (é em outras obras, que eu não li e não posso avaliar fidelidade), é um grande trunfo da TV. As três versões do Imperador são todas fascinantes, o conceito da dinastia clônica e Lady Demerzel. Nesse sentido, a terceira temporada faz um bom trabalho, oferecendo um potencial desfecho para esse arco. E visualmente a série é um luxo, com cenários bem elaborados, especialmente em Trantor. Não gosto do fim da temporada, porém.
Onde ver: Appletv+
Outra Série: The Boys - 5ª Temporada
Já The Boys eu nunca gostei o suficiente para me importar tanto com os rumos. É uma série com o humor muito ácido, extremamente violenta e em geral não acho tão engraçada. O que vale de verdade é a crítica à extrema direita e as atuações. Nesta temporada final há algumas barrigas no desenvolvimento, alguns rumos pouco verossímeis e desfechos que me parecem pouco coerentes com os personagens. Mas ver o Karl Urban com o sotaque britânico mais forte de todos os tempos na TV americana e claramente se divertindo é muito legal. E o Anthony Starr não ironicamente merece prêmios pela caracterização do Homelander. The Boys é mais um de uma série de takes “realistas” sobre como seria se as pessoas horríveis do mundo ganhassem superpoderes. Não é nem a melhor dessas abordagens (veja Watchmen mais acima), não gosto de seu criador nos quadrinhos que originaram a série, Garth Ennis. Mas no fim a produção tem seus méritos.
Onde ver: Amazon Prime Video
E Mais Uma Série: Diários de um Robô Assassino - 1ª Temporada
Já faz vários anos que conheço a série de livros Murderbot, da Martha Wells, vencedora de vários prêmios de Ficção Científica. O protagonista é um robô com inteligência artificial voltado à segurança que hackeia seu código e se liberta da obrigação de obedecer ordens, mas não quer estresse e finge seguir funcionando, enquanto usa seu tempo livre para ver séries, especialmente Sanctuary Moon, uma versão brega de Star Trek. Mas apesar de ouvir falar e acompanhar o lançamento dos quatro primeiros volumes em português (de um total de oito, por enquanto, mas sete são novelas e apenas um é mais extenso um pouco), eu não cheguei a ler nada. Assim, desde que saiu a série de TV estrelada pelo Alexander Skarsgard fiquei curioso. E finalmente conferi. Achei extremamente divertida, sem grandes ambições mas personagens bem estruturados, progressista e a voz interna da IA é muito boa, um dos melhores usos de narração em off dos últimos tempos.
Onde ver: Appletv+
Um Podcast: Não Pod Tocar S06E04 - Qualquer coisa punk na ficção científica
Depois de um hiato longo, o Rodrigo Hipólito retomou o Não Pod Tocar e neste quarto episódio da sexta temporada o convidado foi o escritor Lucas Motta e os dois trataram de subgêneros da Ficção Científica, um assunto que sempre me interessa. Mais especificamente Cyberpunk e as demais categorias de punk que surgiram depois.
Ouça no seu agregador favorito ou no link abaixo:
https://notamanuscrita.com/2026/04/27/npt-s06e04-qualquer-coisa-punk-na-ficcao-cientifica/
Uma Newsletter: Uma Palavra - Lancei a flecha, por Aline Valek
Nesta edição da newsletter a Aline Valek publicou a primeira parte de NÃO SE CURVA A FLECHA DO TEMPO, sua história em quadrinhos, que já tem três partes no ar (as outras duas estão na newsletter também, procurem lá). Pâmela Isis está sofrendo de alguma doença que parece relacionada ao estresse, então sob sugestão de seu pai vai passar uns dias com a avó na sua casinha afastada, enquanto tenta terminar a tese de doutorado. Destaco a arte, com os tons esverdeados, e a atmosfera, que parece sugerir algo inexplicável. Estou gostando muito do início e convido a todos para irem acompanhando essa publicação seriada.
Leia clicando abaixo:




Também sou fã. Acabei de escutar o episódio recente do podcast Team Human, com ele, sobre magia etc.
https://www.youtube.com/watch?v=6LkbtIzlR7k
Tem uma entrevista legal dele sobre anarquismo, que traduzi em meu blog: https://sol2070.in/2024/10/alan-moore-anarquismo/
não consegui seguir com A Fundação, os livros acho chato, a série é até razoável mas nao consegui passar do início da segunda temporada